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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Perdida #26

Caminhamos por uma trilha de terra cercada por árvores de copas altas, vi
muitos pássaros e até um esquilo. Passeamos por um campo aberto com uma árvore apenas. Esse eu reconheci. Foi ali que apareci pela primeira vez. Aproximei-me mais do local, examinando minuciosamente pra ver se eu havia deixado escapar alguma coisa. Não encontrei nada além da pedra em que tropecei. A mesma pedra em formato de meia bola que me desequilibrou em 2014 e me fez cair em 1830. Parecia ser muito antiga, metade coberta de grama, metade exposta. Perguntei-me por que ninguém nunca se
incomodou em tirá-la do caminho. Tive certeza, naquele instante, que realmente estava no mesmo lugar de antes. Que aquele pasto em muitos anos se transformaria numa pracinha, o mesmo lugar onde se ergueria a imensa metrópole. A minha metrópole. Era uma coisa boba, mas me senti melhor por ao menos saber disso.
Joe me explicava e apontava até onde iam os limites de suas terras e com quais famílias faziam fronteira. Uma delas era a família de Teodora. Descemos um pouco no terreno levemente inclinado e paramos perto da margem de um rio. Um rio de águas claras e límpidas — sem pneu, garrafas, papel, ou qualquer outro tipo de porcaria boiando. O mesmo rio que transbordava a cada chuva, inundando as ruas da cidade,
poluído e fétido, há oito quadras do meu prédio. Fiquei surpresa que aquele mesmo riacho já tenha sido um dia assim tão limpo.

— Nossa! É lindo aqui! — não pude me conter.
— Eu sabia que gostaria do riacho. De alguma forma, ele me faz lembrar você. — ele pegou uma pedrinha e atirou na água, que fez um glup ao cair.
— A mim? — não consegui entender a comparação.
— Sim. Assim como este rio, você segue seu curso. Se uma pedra aparecer na sua frente, você simplesmente contorna e tenta encontrar um novo caminho. E, assim como as águas deste rio correm em direção ao mar eu sei que você corre em direção à sua casa.

Ele estava de costas, mas, no final, sua voz parecia aborrecida.

— Mas imagine se, de repente, este rio resolvesse mudar seu curso e passasse bem no meio da sua sala. Não seria o lugar certo, ele teria que voltar para cá. — pra ser honesta, eu também fiquei um pouco aborrecida.

Sentei-me na grama na beira do rio, a margem era um pouco inclinada, mas de uma forma leve e regular, fazia um banco perfeito. Joe se sentou ao meu lado depois de alguns instantes.

— Eu sei disso. — ele ainda fitava as águas. — Mas ainda posso desejar que fique em minha casa por mais um tempo.

Não tive certeza se ainda falávamos sobre o rio.

— Ah! Joe. — sacudi a cabeça exaurida. — Acho que, se não fosse por você, eu já teria enlouquecido. Você tem sido um amigo e tanto. Se eu pudesse te contar tudo...  Mas eu não podia. Não sem ir para um hospício logo em seguida.
— Mas não pode ainda. — ele disse delicadamente. — Eu entendo. Não estou exigindo nenhuma explicação. Mas realmente gostaria que pudesse ficar um pouco mais. Acredita que o Senhor Santiago realmente partirá em breve?
— Eu espero que sim. — mas estranhamente, minha voz não tinha a convicção que deveria ter.
— É tão ruim aqui? — perguntou triste.
— Não é ruim. Apenas diferente. Eu nem posso usar minhas próprias roupas sem ofender ninguém! — sua sobrancelha arqueou minimamente. — Tem tanta coisa que eu queria que você conhecesse, coisas de que eu gosto e sinto falta, coisas que só existem lá.
— Como o que? —a curiosidade estampada naqueles olhos negros e brilhantes.
— Como a Marisa, minha melhor amiga, por exemplo. Nós nos conhecemos na faculdade e desde então nunca mais nos separamos. Ou o Logan, o namorado dela, quase marido agora. No começo, ele é meio difícil de engolir, mas depois que você se acostuma acaba gostando dele. — e por incrível que pareça, eu sentia falta dele também.
— Ou o banheiro. É incrível, Joe, tem tudo nele, você apenas gira uma alavanca e a água sai quentinha. E tem a privada, é claro, muito útil e indispensável. E sinto falta do cinema, da música. Sinto muita falta da música... — depois da Marisa e do banheiro, era a coisa que mais sentia falta.
— Como pode sair água quente de uma alavanca? — indagou espantado.
— A água não sai da alavanca! — eu ri. — Ela apenas controla o fluxo de água que saiu do... há... Descobriram um jeito de aquecer a água do banho, ela sai fria do cano e entra num aparelho chamado chuveiro. Se parece com... Com... um balde, sóque, no fundo deste balde, tem centenas de furinhos. Não é  bem isso, mas é quase isso! A alavanca serve para controlar o fluxo de água ou interrompê-lo e também para regular a temperatura. Então, quando se gira a alavanca, a água passa dentro do chuveiro que a
aquece e sai na temperatura certa por estes furinhos. — difícil explicar o uso de um chuveiro elétrico para alguém que nem ao menos sabia o que era energia elétrica.
— Parece que existem muitos cientistas nesse lugar. Acaba deixando isso aqui um século atrasado. — ele riu.
— Dois! — corrigi, rindo junto com ele.
— O que disse?
— Nada.

Precisava tomar cuidado com o que falava. Mas era tão fácil conversar com Joe!

— Aposto que brincou bastante neste rio quando era criança. — eu disse, abraçando os joelhos.

Ele sorriu timidamente, mas acabou me respondendo.

— Um pouco. Brincava escondido de minha mãe. Ela achava que esse tipo de brincadeira era coisa para os filhos dos criados. — um sorriso torto.

Meu coração reagiu.

— Mas você gostava. — deduzi.
— Muito. Não há muitas coisas que um moleque possa fazer por aqui, se excluir nadar no riacho e atormentar os criados.

Eu ri.

— Mas não posso me queixar, minha infância foi boa. — ele continuou. — Muito diferente da que Elisa teve. Nossa mãe morreu quando ela tinha apenas nove anos. Foi uma época muito difícil para ela. — ele arrancou o caule de uma plantinha ao seu lado e começou a retorcer nos dedos sem perceber.
— Eu sinto muito. — sabia na pele o quanto era difícil perder os pais.
— Passei o resto da minha adolescência tentado ajudar Elisa. Era mais fácil quando ela ainda era criança. Agora, já não consigo ser útil em muitos aspectos.
— Mas ela te adora! Qualquer um pode ver isso! — assegurei a ele.
— Sei disso. Elisa já sofreu muito, senhorita Demi. Primeiro nossa mãe, mais tarde nosso pai. Sou tudo que sobrou da família dela. E ela da minha. Por isso farei o que for preciso para vê-ia feliz! — Joe remexia o talinho com raiva, como se seus problemas pudessem ser enrolados e depois descartados como a planta.
— Ainda bem que vocês tinham um ao outro. Quando meus pais se foram, fiquei sem ninguém. Se não fosse a Marisa, eu nem sei o que teria acontecido comigo. Fiquei tão sem rumo! Tão sozinha!
— Sinto muito. — sua voz grave, intensa. — Deve ter sido muito ruim não ter ninguém.
— Foi muito... péssimo! Teria sido bacana ter um irmão. — tentei sorrir, mas não o enganei.

Ele ficou em silêncio por um tempo, seus olhos apenas analisavam meu rosto.

— Quando aconteceu? — indagou em voz baixa.

— Foi em dois mil e... Há... Foi há cinco anos atrás. Eu tinha dezenove na época, já era uma mulher. Imagino que foi menos... Ruim do que foi para Elisa, que ainda era uma criança.
— Não acredito nisso. Não é uma situação fácil para ninguém, senhorita. É uma pena que eu ainda não a conhecesse na época, gostaria de ter feito algo para ampará-la.
— Joe, você é a pessoa mais incrível que já conheci. — tentei sorrir para aliviar o clima. — E olha que já conheci cada figura! Mas obrigada por estar aqui agora. Depois da morte de meus pais, esta é, com certeza, a situação mais difícil que já enfrentei. E desta vez você está aqui!

Ele sorriu um pouco. Mas seus olhos ainda estavam tristes

— Não fique assim, Joe. Se saiu muito bem com Elisa e logo você terá uma nova família e tudo ficará bem... — um nó no meu estômago me fez parar.
— Não, senhorita Demetria, não ficará bem. — ele baixou a cabeça e apoiou os braços no joelho.
— Claro que ficará. Se você quiser, posso te ajudar a encontrar uma garota bacana. — meu estômago se revirou como se eu estivesse em uma montanha russa. — Você me diz do que gosta e eu te ajudo. De repente, você encontra alguém que gosta de verdade e acaba sendo muito mais feliz do que imagina ser possível.

Ele ficou ainda mais triste.

— Mas eu já encontrei, senhorita.
— Já?
— Sim. Mas não pode dar certo. — seu rosto desolado.
— E por que não? — murmurei, ainda assim, minha voz tremeu.
— Por que ela não pode ficar. — E me lançou um sorriso triste.

E como dois imãs poderosos, seus olhos capturaram os meus, a intensidade deles fez meu coração voar. Minha cabeça girava como um liquidificador na potencia máxima, e respirar se tornou impossível.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, minha atenção foi desviada para o barulho de patas pesadas. Procurei ver o que era ao mesmo tempo em que Joe se colocava de pé. Levantei-me também e corri para seu lado.
— O que foi? — perguntei, quando vi a expressão preocupada em seu rosto. Seus braços se estenderam em minha frente protetoramente, me empurrando um pouco para trás. Então eu vi Storm cavalgando feito louco em nossa direção.

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Heeey meninas,postei,desculpem a demora hoje,o desafio acho que terá que ficar pra amanha certo? ou que tal o mesmo de ontem,5 comentarios ate antes de 1 da manha,e sai um capitulo lindo ,que tal? Agora é com voces minhas lindas,curtam,comentem,kibem,deixem a opinião de voces.
 Cara,amo voces minhas lindonas
Beijos,Nath

4 comentários:

  1. que meeeeeerda eu pensei que eles fossem se beijar
    posta mais

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  2. gente ele praticamente se declarou ali :c

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  3. ai carai cadê o beijo? cadê o hot? hashuahahsuah
    posta logo pls

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